O que se sabe sobre os tornados no Rio Grande do Sul?

Os temporais com fortes ventos que atingiram cidades gaúchas nesta última terça-feira (12) foram classificados como tornados de categorias F2 a F3

Os temporais com fortes ventos que atingiu cidades gaúchas nesta última terça-feira (12) foram classificados como muito severos, e pelo menos os eventos que ocorreram entre Coxilha e Tapejara foi um tornado de categorias F2 a F3, os ventos podem ser estimados em pelo menos 250 km/h pela escala Fujita. Nas outras cidades é possível a ocorrência do fenômeno, mas foram menos duradouros e menos intensos.

Duas pessoas morreram e centenas de residências foram destelhadas pela força do fenômeno. As regiões mais atingidas, segundo a Defesa Civil do Estado, foram o Vale do Caí, Serra, Centro e Norte do Rio Grande do Sul.

O que se sabe sobre o fenômeno?

  • Houve fotos e vídeos da formação de nuvem funil ou dos estragos em algumas cidades do noroeste, centro e norte do estado: Coxilha, Tapejara, Água Santa, Passo Fundo, Ronda Alta, Ciríaco, Sarandi.
  • Um radar é capaz de gerar imagens da taxa de água precipitável dentro da atmosfera e também do deslocamento, direção e intensidade dos ventos. Infelizmente, a rede de radares meteorológicos da Aeronáutica, que contemplam o Rio Grande do Sul, só disponibilizam imagens de chuva, não de vento.
  • Foi feita uma pesquisa de todas as imagens da tarde e da noite de ontem para hoje, começando às 17h e terminando à 1h. Infelizmente, não há imagens claras com a assinatura tornádica deste período (é um formato específica que identifica o fenômeno) – não por não ter ocorrido, mas sim devido à demora na disponibilização das imagens (a cada 10 min).
  • Para saber se é um tornado, é preciso fazer um estudo da atmosfera em superfície, a partir de estações meteorológicas, e da atmosfera vertical, através de emissão de radiossonda (balão meteorológico). Não há, infelizmente, estações ou radiossondas perto destas cidades. A estação meteorológica que registrou o vento mais intenso foi São José dos Ausentes, na serra, com 109km/h.Restam então as informações por radar.
  • Um tornado é um evento intenso, devastador, pequeno e muito rápido. Por isso, algumas imagens de radar podem não ter passado a tempo de identificá-las.

Tornado ou micro explosão?

Uma micro explosão também possui a capacidade de produzir rajadas fortes e estragos e vem da mesma nuvem que forma os tornados (super célula). Vamos entender a diferença entre elas:

Nuvens de tempestade severa

Uma tempestade severa inicia a partir de uma nuvem de desenvolvimento vertical conhecida como Cumulonimbus. Por definição, uma nuvem Cumulonimbus é uma nuvem de “grande dimensão vertical, em forma de montanha ou de enormes torres; as dimensões horizontais e verticais são tão grandes que a forma característica da nuvem só pode ser vista a longa distância”.

cumulunimbus

Diferentes tipos de sistemas meteorológicos são capazes de produzir nuvens de grande profundidade vertical como estas: frentes frias, convecção, linhas de instabilidade, dentre outros.

A formação desta nuvem geralmente implica em intensa precipitação, forte turbulência, presença de rajadas de vento das mais diferentes naturezas, descargas elétricas e avanço de linhas de instabilidade. Podem conter granizo e também ocasionar tornados. As consequências das tempestades severas, porém, depende das condições atmosféricas de sua formação.

Quando uma tempestade severa tem início a partir de uma nuvem Cumulonimbus isolada, ocorrem grandes quantidades de chuva na forma líquida e também de gelo. Este evento dura em média de 30 a 50 minutos e em situações extremas dá origem a explosões atmosféricas (downburst), trombas d’água e tornados fracos.

Quando acontece um aglomerado de Cumulonimbus, a combinação dos fluxos para fora de cada célula forma uma grande frente de rajada. Em geral é observado um forte cisalhamento direcional em baixos níveis do vetor cisalhamento do vento vertical, além da presença ou não de ventos rotacionais dentro da nuvem (situação de mesociclone). O aglomerado de Cumulonimbus também está associado à ocorrência de tornados de curta duração e de explosões atmosféricas.

Por fim, uma supercélula de tempestade é mais destrutiva das tempestades convectivas. Também consiste de um aglomerado de Cumulonimbus, no entanto são tempestades mais duradouras.

Micro e macro explosão

Uma explosão atmosférica (ou downburst) consiste numa subsidência muito rápida e intensa de ventos a partir de uma nuvem de tempestade severa. O vento descendente é tão rápido que parece “desabar” do interior da nuvem, espalhando rajadas por todos os lados. A velocidade das rajadas podem ser comparadas à de alguns tornados.

macro explosao

A micro explosão (ou microburst), mais comum, é uma rajada de vento descendente anormalmente forte e concentrada, que produz vários estragos próximo ao solo numa área de até 4 quilômetros. Além disso, possui curta duração (geralmente entre 3 a 8 minutos) e produz efeitos intensos, porém isolados. Já uma macro explosão acontece quando o raio de destruição é maior do que 4 quilômetros.

Tornados

 Um tornado pode se formar numa nuvem de tempestade severa a partir de um ambiente instável e de convecção profunda, associada a um centro de baixa pressão atmosférica, intensos gradientes de temperatura e de pressão e também a um grande cisalhamento do vento.

tornado

O tornado é conhecido pela forma de seu funil e de seus ventos em espiral, capazes de causar destruição. Um tornado pode atingir ventos de 110km/h a mais de 500km/h, e muitas vezes a velocidade de suas rajadas só pode ser mensurada a partir dos danos.

 O Sul do Brasil é a segunda região do mundo em número de tornados, que vêm sendo registrados com maior frequência nos últimos anos por conta da facilidade de transmissão online em tempo real. Mesmo assim, o número de ocorrências anuais é considerado baixo, comparando com os Estados Unidos, que detêm 75% do número de ocorrências anuais no mundo.

Os tornados possuem como característica um diâmetro relativamente pequeno do funil de ventos (de centenas de metros a até 2km) que geralmente deixa uma trilha de rastro destrutivo no solo por onde passa. Além disso, é um fenômeno de curta duração, durando de segundos a 30 minutos.

A identificação do tornado normalmente se dá de forma visual ou através de imagens de radar meteorológico do tipo Doppler. Um tornado pode ser identificado no campo de vento deste radar como assinatura de vírgula invertida.

Estragos e mortes

  • Até o momento soubemos de duas mortes no RS e uma na Argentina por tornados entre ontem e hoje.
  • Há pelo menos imagens de árvores destruídas ao meio, rastros fundos na grama, veículos pesados como carretas virados de ponta-cabeça e informações de aves que foram mortas, levadas pelo vento.
  • Como não há dados confiáveis, resta somente a análise dos danos locais, que é melhor realizada por uma equipe forense. Enfim, como alternativa, foram analisados os dados da internet. Os danos, assim, são comparados de forma empírica à escala Fujita de classificação de tornados (em azul):

Escala Fujita

A escala Fujita vai de F0 (Fujita-0 abreviado) até F5 (Fujita-5 abreviado):

Tornado F0: Velocidades de vento inferiores a 117 km/h. Normalmente causam poucos danos.

Tornado F1: Velocidades de vento entre 117 e 180 km/h. Até mesmo estes tornados podem levantar telhas e mover carros em movimento para fora da estrada. Trailers podem ser tombados e barracos podem desmoronar.

Tornado F2: Velocidades de vento entre 181 e 253 km/h. Os telhados de algumas casas começarão a levantar e os trailers/casas móveis que estiverem no caminho do tornado serão demolidos. Este tornado também pode soprar vagões de trem para fora de seus trilhos.

Tornado F3: Velocidades de vento entre 254 e 332 km/h. Árvores pesadas serão arrancadas e levantadas pela raiz, e paredes e telhados de edifícios sólidos serão arrancados como palitos de fósforos. É um tornado severo.

Tornado F4: Velocidades de vento entre 333 e 418 km/h. Locomotivas e caminhões pesados toneladas são arremessados como brinquedos, prédios podendo ser destruídos mas não arrancados, estruturas como: hidroelétrica(certamente sendo uma construção forte e bem arquitetada) podem ter prejuízos elevados. Haverá devastação total.

Tornado F5: Velocidades de vento entre 419 e 512 km/h. Tornados com esta intensidade destroem tudo em seu caminho. Os carros são arremessados como pedras para centenas de metros, e edifícios inteiros podem ser levantados do chão. A força é semelhante à de uma bomba atômica.

Conclusões 

De acordo com as imagens e vídeos aos quais tivemos acesso pelas redes sociais dos danos apresentados, é provável que tenha ocorrido uma família de tornados de diferentes velocidades, durações e área de atuação entre os municípios citados.

O mais severo parece ter ocorrido na estrada entre Coxilha e Tapejara, com o registro de três caminhões de grande porte completamente revirados e indícios de que foram arrastados por grandes distâncias. Segundo estas evidências, é provável que neste cado o tornado seja pelo menos um F2 ou F3 com ventos de 250km/h ou mais neste local.

ezgif-5-03a054b780

Seleção de imagens entre 17h de segunda (11) e 01h de terça-feira (12), pelos radares de Canguçu e Santiago

Não há provas cabais da ocorrência destes fenômenos por falta de dados. Contudo, até outras  cidades podem ter vivenciado um tornado ou nuvem funil entre ontem e hoje, que não puderam ser percebidos pela escuridão ou rápida passagem ou a falta de dados. Não teremos como saber e vai para o campo da especulação.

 

Veja agora a previsão do tempo na sua cidade.