Outono é sinônimo de nevoeiro

Época do ano requer atenção nas rodovias e mudança de hábito dos usuários de avião

O outono chegou no Hemisfério Sul nesta segunda-feira (20), às 07h29 no horário de Brasília. Entre várias características desta estação, uma delas é o aumento da incidência de nevoeiro, também chamado neblina ou cerração.

O nevoeiro é uma nuvem chamada de stratus, cuja base fica sobre o solo e reduz a visibilidade para menos de mil metros. Ou seja, mesmo quem nunca viajou de avião, já chegou perto das nuvens.

Sempre que há formação de nevoeiro, a umidade relativa do ar chega aos 100%. A umidade relativa tem uma dependência inversamente proporcional à temperatura. Isto é, uma das formas de aumentar a umidade relativa do ar para 100% é baixar a temperatura. Por isso, na maior parte das regiões Sul e Sudeste, o fenômeno é mais comum nas madrugadas e inícios de manhã, período em que a temperatura do ar fica mais baixa. Este nevoeiro é chamado de radiativo, pois a perda de calor (diminuição de temperatura) acontece através da emissão de radiação infravermelha da superfície para camadas mais elevadas da atmosfera.

Já em áreas serranas de todo o país, também há formação de nevoeiro advectivo ou orográfico. Neste caso, para a umidade relativa do ar alcançar 100%, não há mudança significativa de temperatura. Existe um transporte, também chamado de advecção, de umidade de uma área para as serras, fazendo com que a quantidade de vapor aumente repentinamente. Como nas áreas serranas, a temperatura normalmente é mais baixa, o vapor acaba condensando e formando o nevoeiro.

Em 15 de setembro de 2011, um nevoeiro advectivo foi responsável pelo maior engavetamento registrado na rodovia dos Imigrantes, envolvendo 104 veículos, matando uma pessoa e ferindo outras 29. O acidente aconteceu no topo da serra do mar, local em que há entrada frequente do vento úmido chamado de brisa marítima. Ao encontrar uma temperatura mais baixa, a umidade condensou, formando o nevoeiro. A Anchieta e a Imigrantes, aliás, são algumas das poucas rodovias que trabalham com comboio de veículos, sempre que há diminuição excessiva da visibilidade. A partir das praças de pedágio nas rodovias Anchieta e Imigrantes, a polícia rodoviária conduz os veículos em uma velocidade reduzida até um ponto onde a visibilidade seja mais elevada.

Engavetamento na Rodovia Imigrantes  em 2011/ Foto: Evelson de Freitas (AE)

Engavetamento na Rodovia Imigrantes em 2011/ Foto: Evelson de Freitas (AE)

O nevoeiro também causa problemas para a aviação. Saem de cena as chuvas fortes e fechamentos durante as tardes para a baixa visibilidade e fechamentos durante a madrugada e primeiras horas da manhã. Alguns usuários que podem mudar seus hábitos deixam de pegar aviões nas primeiras horas da manhã e passam a fazê-los mais próximo do meio dia para evitar grandes atrasos. Em um passado não muito distante, até clubes de futebol mudaram a logística para não ficar muito tempo parados nos aeroportos.

Lembro particularmente de um jogo no estádio do Pacaembu, em São Paulo, entre Corinthians e Atlético Paranaense em um outono. Ao término do jogo, o técnico avisou que a entrevista coletiva seria curta, pois o time voltaria para Curitiba de ônibus e havia pressa para o embarque. O motivo para a viagem mais prolongada de ônibus era o grande risco de nevoeiro e fechamento do aeroporto Afonso Pena no dia seguinte. Normalmente, os times de futebol que jogam longe de casa à noite passam a madrugada em um hotel e voltam para suas cidades na manhã seguinte, de avião. Mas por conta da possibilidade de fechamento do Afonso Pena, a comissão técnica resolveu que todos dormiriam no próprio ônibus, durante a volta para Curitiba.

O nevoeiro também pode ser associado com elevada poluição atmosférica nos grandes centros urbanos. Normalmente, o nevoeiro forma-se em dias com inversão térmica, ou seja, ao invés da temperatura cair com a altura, acontece o contrário. Nesta condição, não há mistura entre o ar mais próximo da superfície e o ar superior. Depois da dissipação do nevoeiro, forma-se uma camada cinza de poluição mais próxima da superfície.

A poluição também é uma das responsáveis pela formação de nevoeiro

A poluição também é uma das responsáveis pela formação de nevoeiro

Na região Norte, também há formação de nevoeiro por conta da grande umidade emitida pela floresta amazônica. Algumas experiências agrícolas desenvolvidas no passado penaram bastante por conta da elevada umidade e facilidade no desenvolvimento de doenças fúngicas. Uma dessas experiências, a Fordlandia, aconteceu na década de 1930, no interior do Pará. A ideia era cultivar seringueiras em uma grande área desmatada para exportação de látex.

Acontece que na selva, as seringueiras naturalmente ficam distantes umas das outras, diminuindo a incidência de doenças. Ao plantar as árvores próximas umas das outras, totalmente expostas ao tempo, elas adoeceram com facilidade. Foram várias as pragas que atingiram as seringueiras, além dos fungos. No livro “Fordlandia – A ascensão e a queda da cidade perdida na selva de Henry Ford”, o historiador da Universidade de Nova Iorque Greg Grandin afirma que inicialmente os responsáveis pelo empreendimento ficaram maravilhados quando os primeiros raios de sol incidiam sobre a neblina, gerando uma iluminação difusa muito bela. Mas posteriormente, eles perceberam que era justamente neste período em que os esporos do fungo ficavam ativos e atacavam as plantas. No fim das contas, a Fordlandia nunca conseguiu se pagar. Estima-se que o prejuízo tenha chegado aos 2,5 milhões de dólares.

 

CELSO

 

Celso Oliveira é meteorologista e mestre em agronomia, formado pela Universidade de São Paulo, e desde 2001 é colaborador da Somar Meteorologia.

 

 

 

 

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